O caso Grupo Mateus e a ilusão do lucro no varejo supermercadista
Quando um dos maiores grupos supermercadistas do Brasil identifica um rombo superior a R$ 1,1 bilhão, o choque é inevitável. Afinal, trata-se de uma operação bilionária, estruturada, auditada e com histórico de crescimento consistente.
Mas o caso do Grupo Mateus revela uma verdade desconfortável: supermercados não quebram por falta de venda — quebram por falta de controle.
O problema não é o tamanho. É o processo.
O episódio chamou atenção não pelo valor absoluto do rombo, mas pela sua origem:
erros operacionais silenciosos, acumulados ao longo do tempo, mascarados por números que pareciam corretos.
Entre os principais fatores identificados estão:
• Estoque registrado de forma incorreta
• Custo médio distorcido
• Entradas de mercadorias sem conferência adequada
• Perdas não registradas
• Crescimento sem padronização de processos
O resultado é clássico: um lucro contábil que não existe na prática.
Quando o físico não conversa com o sistema
Um dos dados mais alarmantes do caso foi a constatação de que algumas lojas passaram até dois anos sem inventário físico completo.
Em supermercados pequenos e médios, a realidade costuma ser ainda mais crítica:
• Inventários semestrais ou anuais
• Conferências por amostragem
• Ou, em muitos casos, nenhum inventário real
Quando o estoque físico não bate com o sistema, o gestor passa a tomar decisões baseadas em números irreais — e não percebe que está perdendo dinheiro diariamente.
Crescer sem processo é acelerar o prejuízo
À medida que o supermercado cresce sem estrutura, o cenário se repete:
• Entrada de mercadorias vira rotina informal
• Conferência é feita “como sempre foi”
• Nota fiscal entra, produto não
• O custo médio explode
• Produtos somem
• Perdas não aparecem
O negócio cresce em faturamento, mas encolhe em margem.
Erros comuns que destroem a margem em silêncio
Os mesmos problemas identificados no caso Mateus são recorrentes no varejo:
• Custo médio calculado incorretamente
• Bonificações lançadas de forma errada
• Configuração fiscal inadequada (PIS/ICMS)
• Cadastros de produtos inconsistentes
• Perdas escondidas dentro do estoque
Nenhum desses erros quebra uma empresa de uma vez.
Mas juntos, corroem a margem todos os dias.
Desvio não começa na venda — começa na descarga
Outro ponto crítico é a área de recebimento de mercadorias.
Sem processo claro:
• A nota entra
• O produto não
• A conferência é parcial
• A mercadoria é desviada antes mesmo de virar estoque
Com inventários espaçados, o problema só aparece quando o prejuízo já é grande demais.
O erro da bonificação: lucro hoje, prejuízo amanhã
Mercadorias recebidas como bônus da indústria exigem tratamento correto no sistema.
Quando lançadas de forma errada:
• O custo médio infla
• O estoque parece maior
• O lucro fica artificialmente alto
• Meses depois, o prejuízo aparece
Esse tipo de erro já impactou grandes redes nacionais e continua sendo uma das falhas mais comuns no varejo.
O verdadeiro alerta do caso Mateus
O rombo não foi causado por fraude isolada ou queda de vendas.
Foi causado por anos de decisões tomadas com base em números que não refletiam a realidade.
Se isso aconteceu com um gigante bilionário, a pergunta inevitável é:
quem está olhando, de verdade, para os números do seu supermercado hoje?
Conclusão
Supermercado não quebra por falta de cliente.
Quebra quando perde controle do estoque, do custo e do processo.
O caso do Grupo Mateus não é uma exceção — é um alerta.
E, para muitos negócios, esse alerta pode estar sendo ignorado neste exato momento.







